#influencia: Ciça Bracale

Howlin' Records

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#influencia: Ciça Bracale

Acordamos num 8 de março. Dia internacional das mulheres. Um dia de luta. Cenário perfeito para a primeira publicação de mina aqui na nossa série.

A voz nessa data tão importante é da casa e atende por Ciça Bracale. A vocalista do (agora) quinteto eletro-post-punk-cabaret * Gomalakka* fala sobre sua trajetória na música e quem a influenciou num tom confessional e hipnotizante.

Ouça a playlist dela aqui: https://soundsgood.co/playlist/cicas-flu
E o Gomalakka no Spotifyhttp://bit.ly/21imtoT

” A minha relação com a música sempre foi um acontecimento bem irracional, muitas vezes aleatório e caótico, sem muita metodologia, por isso confesso que me esforcei pra tentar organizar em uma lista pequena, o que considero as reverberações mais evidentes no que penso, sinto e produzo hoje em dia. E não sei dizer também onde começa a influência, que muitas vezes vem indiretamente:

The Carpenters: Na minha infância, por exemplo, ouvi muita Elis Regina através da minha mãe e lembro de meu pai dizendo das letras da Mercedes Sosa, e de outras, presta atenção filha, que forte. Eu prestei. Lembro também que eu gostava muito de imitar a Karen Carpenter, aqueles gravões que pra mim soavam visualmente como um tapete felpudo. We´ve only just beguuuuuun:

Nina Hagen (Nina Hagen Band / Automobil): A primeira vez que vi Nina Hagen e uma mulher no rock foi na TV, na infância, e me causou uma sensação de sublime,como a Cuca do Pica Pau Amarelo causava, algo entre medo e atração,entre grotesco e belo. Hoje continuo adorando assistir a Nina,o lance de rir de si mesma, de provocar, de meter um pedaço de ópera na música por que sim, de não se levar tão a sério mesmo tendo uma banda foda tocando junto, ou sabendo de técnica vocal, isso sempre me atraiu.Esse jeito drag de ser. E tem que entender também que essa atitude nasceu inserida num contexto pós-guerra super estéril e engessado, o que é ainda melhor. Dizem que ela era tipo uma minicelebridade do canto lírico na DDR. Mas ela pulou o muro e os muros, foi causar na cena punk de Londres e depois, apadrinhada por Zappa, chegou aos States. Em entrevistas recentes, sai só o restoco da voz, sinal de que ela se jogou mesmo, o que considero mais que bom.

Beth Gibbons (Portishead): O álbum Dummy, é a trilha principal dos meus primeiros anos do combo faculdade-criseexistencial-bebedeiras. Se eu tinha começado a tocar violão publicamente anos antes imitando a voz cheia de ar e o falsete céltico da Dolores O´Riordan, a Beth me libertou de emular vozes alheias.Isso porque por mais que eu quisesse imitá-la, seus agudos pro meu timbre eram inalcansáveis e o amor por suas composições e sofrências era tanto, que comecei a fazer versões adaptadas pra garantir que Roads ou Wandering Star, por exemplo, fossem tocadas nas rodinhas acústicas. Com toda sua contenção e leveza, aprendi também que não era necessário gritar para imprimir emoção ou profundidade. Na verdade é muito mais difícil manter a tensão da música se você grita igual o tempo todo… A combinação vozinha melancólica + baixão marcou. Até hoje ouço em dias cinzas.

Joan Baez: Um dia estávamos numa roda de amigos, em alguma praia perdida, tocando violão. Entre eles Azeite, do hoje Testemolde, e João Riveros do Ordinária Hit. E quando terminamos uma versão qualquer, João vira pra mim e me fala de Joan Baez, que ele tinha se lembrado dela, se eu conhecia. E não, eu não conhecia nada. Então fui procurar, respeito muito o João e imaginei logo que a dica devia fazer sentido. E me encantei, pela poesia, pela simplicidade e força lírica. Pela poesia…O fato é que, a partir de Joan, comecei a colecionar cantores e cantoras folk e nunca mais larguei mão.

Amanda Palmer (The Dresden Dolls): Na época em que estávamos começando a fazer uns sons, o protoprojeto que hoje se divide em Gomalakka e Frissom Cab, Rafael Suriani e eu estávamos numa onda de buscar uns dark cabarets. E o projeto Dresden Dolls de Amanda Palmer apareceu no meu caminho.Tinha Girl Anachronism e Half Jack no repeat do carro, enquanto cruzava as marginais. Gostava das letras, da atmosfera e alma punkcabareística, da simplicidade piano agressivo + bateria. Depois fui ler seu livro “A Arte de Pedir” e me encantei mais por seus projetos e ações, sigo suas produção na plataforma Patreon e seus textos pelo Medium. Basicamente presto bastante atenção no que ela diz e faz como artista.

Karen O (Yeah Yeah Yeahs): A primeira vez que escutei a sul-coreana Karen, no projeto Yeah Yeah Yeahs, ela trazia uma sonoridade e maneira de cantar que eu estava buscando e de alguma forma me identifiquei.Depois vi um ou outro clipe e gostei bem da arte e tal, e aí cheguei numa gravação ao vivo de uma gig na Glassland Gallery, dela performando “Rockers to Swallow”, de macacão pintado e máscara no escuro, no meio da galera tudo, e me apaixonei. Queria ter estado alí, me jogado no chão também, suja de tinta. Aí pronto, pra completar, ela vai e faz 2 coisas que eu quero desde sempre muito fazer: um projeto para crianças,(no caso a trilha do flme lindo de Spike Jonze “Where the Wild Things Are”), e um cd com poucos recursos de estúdio, tosco e intimista, sem refrão, que mostra o lado B mais melencólico e singelo, por trás da agressividade do YYYs, (Crush Songs).

Lhasa De Sela: Eu tenho um caso de amor por esta mulher. Ela marca um momento da minha vida muito específico, estrangeiro, dolorido e solitário. Ela é por isso, como uma paisagem e tempo pra mim. Ela canta em 3 idiomas, espanhol, inglês e francês. Ela veio de uma família nômade de artistas, e aprendeu a cantar em saraus. Suas letras são lindas e sua voz muito real, sem estripulias. Morei 7 anos na Espanha e então houve um momento em que eu falava e pensava mais em espanhol do que em português, comecei a compor e precisava criar uma identidade de voz em outro idioma. Ouvi muitas cantoras que até hoje ouço, desde flamencas mais tradicionais, até as cantoras mais pops de rumbas e bolerías e mesmo rock. Mas fiquei com a Lhasa como guia principal, essa mezzo mexicana mezzo canadense. Infelizmente ela morreu de câncer de mama em 2010 com a idade que tenho hoje, mas não a paro de escutar.

PJ Harvey: Tinha uma música da Polly Jean que eu não parava de ouvir, na verdade não lembro direito a origem da historia. A música era Dress. Eu gostava daquela figura aparentemente frágil lidando com sua guitarra e temas ásperos. Depois lembro de outras, tipo, Rid of Me, Yuri-G, gosto da crueza e força, dos contrastes, gemidos e soluços. Mas só fui prestar atenção mesmo assim de ficar ouvindo com atenção plena depois de um show num festival, do disco Let England Shake. Havia dias na minha casa tava tocando o cd e eu tinha achado bem diferentão, mais maduro, os temas, os arranjos, tipo legal.Mas aí fui no show e fiquei impressionada com o ao vivo. E ela virou uma figura de referência, que vira e mexe volto. Uma curiosidade é que no mesmo dia , num palco menor estava a Hope Sandoval, por quem eu era louca antes, mas ao vivo, maaano, 2 músicas e ok, parece que você já ouviu todas….
Björk: Basicamente, se eu tivesse que escolher ser alguma personalidade eu ia pedir muito pra ser ela. Conheci a Björk por causa dos seus vídeos incríveis. Gostava das músicas, às vezes ouvia pra trabalhar, essa era a relação principal. Aí os caminhos tortos da vida me levaram prum show dela do disco “Volta”. Meu-deus. O que era aquela figura tão pequena e ao mesmo tempo tão gigante cantando pras estrelas, num palco de onde saíam uns lasers na “Human Behavior”, com uma orquestra só de mulheres, vestidas de seres da floresta e do cosmos. É gozo visual e sonoro. Sinestesia. Fechei os olhos, tava deitada no chão, a amiga do lado também. All is full of love passou que nem corrente elétrica por todas as minhas células. eu tava sóbrea. e eu chorei. olhei a amiga, ela também. Foi tipo isso. Quando crescer, quero ser um pouco dela. Essa coisa de cantar pra todos os seres e além, e estar inteira ao mesmo tempo. e de autenticidade, nem preciso dizer.

SIOUXSIE (Siouxsie And The Banshees): Esta é uma descoberta recente, se você quer saber. Ou melhor, uma re-descoberta, porque afinal, quem viveu nos anos 80, ouviu pelo menos uns 3 hits da Siouxsie and the Banshees. Mas ir além do ícone e do visual, e se interessar pela sonoridade mais sombria foi acontecer mais tarde, quando já estava produzindo minhas próprias músicas e me identifiquei mais com a proposta como um todo. falar de ícones ´muito ruim, porque parece que tudo foi dito já. Por isso apenas digo que Siouxsie ainda é meu livro de cabeceira inacabado. Amo sua voz, tem essa também.

Shara Worden (The Decemberists / My Brightest Diamond / Sufjan StevensJedi Mind Tricks): essa voz, putz. Quer aprender a fazer agudos sem doer ou ferir, ouça. Conheci a voz de Shara através dos Decemberists. Era uma época que tocava bastante em casa o disco-historinha “The Hazards of Love” e ela aparecia como a Queen. Aí fui atrás da voz. Descobri que ela tinha feito um monte de participações por aí, por exemplo, com o Sufjan Stevens. heart emoticon. ai ai. E só depois descobri My Brightest Diamond. Além da formação em canto lírico , é multiinstrumentista. Eu piro nessa moça. Minha profi de agudos.

Menções – bonus, que não paro de reparar, mas acabou a lista:  FKA twigsGrace SlickJoni Mitchell, Nico (The Velvet Underground & Nico), Fever RayAngel OlsenValerie June, etc etc etc etc. tá, parei.”