#influencia: Marcos Felinto

Howlin' Records

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#influencia: Marcos Felinto

Marcos Felinto é a inquietação no Afro HooligansNoalaAbske Fides e Coletivo Sistema Negro.

Sempre que um artista aceita o convite para que possamos desbrava-lo (e se desbravar) nesse processo que é entender o que o forma, ficamos muito felizes em razão disso se tornar uma espécie de aula ou conexão com quem somos ou fomos.

Esse foi um dos episódios mais complexos e agregadores da série. Saiba por quê nas linhas abaixo:

Playlist: https://soundsgood.co/playlist/mestres
https://afrohooligans.bandcamp.com/
https://abskefides.bandcamp.com/
https://noala.bandcamp.com/

A brincadeira de elencar uma espécie de artistas top 10 em minha formação musical é divertida e mega cruel, começando pelo background metaleiro, parto primeiro para o aspecto cruel, que consistem no simples fato de ter que escolher.

Acho que criei um procedimento também, falarei daqueles que influem sobre meu modo de pensar música nos últimos 5 anos, considerando que 5 anos seja um tempo considerável para que uma pessoa mude padrões comportamentais e artísticos drasticamente.

Ainda assim entre estes há influências que sobrevivem desde a adolescência. A parte boa disso é que terei que fazer algo que pouco faço para poder apresentar algo para vocês, pesquisar biografias (minimamente).

Sempre costumo pensar mais em termos de bandas e projetos do que de músicos, ainda que saiba que toda a banda tem um ou outro que encabeça tudo faz a liga e o charme das boas composições.

Lisa Gerard e Brenda Perry (Dead Can dance) – Vou trapacear aqui, pois é difícil falar de um sem o outro. E ainda assim não queria que os entendessem como Dead Can Dance, pois cada um tem trajetórias particularmente ricas, que culminaram no fim do DCD e que culminaram também no retorno do projeto. Em tudo Lisa Gerard é minha mestra sobre todos os outros, primeiro de tudo por ser a partir dela que notei padrões sonoros não ocidentais, por ser a partir dela que percebi algo genuinamente transcendental na música (pela primeira vez), explico o motivo, ela e Brendan, sendo brancos, foram os que me apontaram com sua música a negritude que havia em mim. Esse talvez seja o maior trunfo da música; quando se escuta não se pode ver cor ou classe, simplesmente os ouvi e me entendi negro. Incrível não? Talvez o Sacks consiga explicar isso.

Fora isso (que não é um pouco isso) eles carregam o peso de me darem portas para partir no sentido de uma longa pesquisa sonora que venho fazendo até hoje.

Em muitos momentos o timbre de voz dela ou linhas que ela faz são formas que tenho transpor para minha voz, guitarras, synths, beats, ou alguma linha de baixo. Também aprendi nela intervalos mais complexos, enfim ela me ensinou um labirinto que me leva mais para cima do que para baixo, esse é o caminho que sigo.

Kevin Shields (My Bloody Valentine) – esse é o geek por trás de equações de pedais indecifráveis do My Bloody Valentine. Um músico de cabeça boa, criador de loopings que sempre funcionam em formato espiral. Tem algo muito foda nos sons dele (inclusive quando solo) que é uma mistura entre camadas de naturezas aparentemente antagônicas. Gosto muito de sentir que o músico pensou antes de compor, e digo isso pois é fácil fazer uma música nova, sem força, e lotar o mundo com mais e mais arquivos inexpressivos inclusive para os artistas que os criam. Me agrada ver os locais por onde ele circula, isso o mostra um inquieto (como eu acho que sou). Descobri recentemente um parceria entre Kevin Shields e David Lang, até se o disco deles fosse um bate papo sobre como pensar música já estaria valendo. Para finalizar com ele, compartilhar que, a primeira vez que ouvi MBV foi no Milo, em uma quarta, próximo da Av. Angelica, após sair de um ensaio (na madrugada) com a Abske Fides, somando o cansaço e o peso da música diria que ouvir MBV naquela noite foi meio que um alívio.
Nicolas jaar (Darkside) – em uma entrevista o cara me vira e fala assim: “tento pensar o volume como um instrumento”, isso mudou a minha relação com todos os botões que eu costumo apertar girar e quebrar quase que diariamente. Ele é um cara do frescor, faz gravações e produções cheias de ar pra respirar e se ouvir as distâncias entre um timbre e outro. É uma moleque (26 anos) com uma das mentes mais brilhantes para mixagem…o foda de tudo é que ele apresenta uma estética que é um conceito… você já parou para tentar perceber quais as distancias entre os sons dentro de uma redução stereo, entre o L e o R, e apenas dentro do R ou do L como convivem 8, 10, 12 timbres diferentes e quais as distancias entre eles dentro deste espaço não físico. Bom fora o Jaar, tem o projeto Darkside dele, que é um arregaço.

Muep Etmo – Frito de temperamento e tempos muito peculiar, ele é o cara que me ensinou a ouvir sons baterem atrás da minha orelha, a música dele é mega difícil, e confesso que não é o que mais escuto, entretanto todavia, o cara me deu minhas primeiras aulas em logic e me ensinou a entender relações entre frequências e pesos. Dá até para dizer que ele é uma espécie de Aphex twin de mal humor. Além disso, a parceria entre ele e Mirella Brandi é um dos poucos projetos que trabalham musica e luz de forma tão bem amarrada. Certamente, é um dos lugares aonde ainda quero chegar. Coloque o Muep aqui, pois é pensando no que aprendi com ele que faço minhas mixagens. “Escute o grave na ponta de baixo da sua orelha e os agudos no topo traseiro de seu crânio”…
Akin Deckard (To destroy something beautiful , Metanol) – Aqui vou para algo peculiar, o que mais me influi em Akin é o que ele me apresenta e me diz quando temos oportunidade de trocar palavras. Digo com alguma segurança que o modo como ele faz curadoria musical e organiza seleções é, em si, composição, capaz de apresentar como ele faz música. A Metanol também me ensinou a pensar como usar música em espaços públicos, como criar situações e tudo mais. Hoje não consigo acompanhar tanto, mas tenho memórias dos anos de 2012 e 13 que me marcaram muito e que ainda hoje influem sobre como produzo música. Nos últimos meses ele apresentou um projeto chamado To Destroy Something Beautiful, ai voltamos para a págida do Kevin Shields só que na linguagem eletrônica. Um dia, empolgado passei um som (ruim) que havia feito para ele ouvir, ele ouviu e disse: “Pô mano, usa um sidechain” nunca tinha ouvido essa palavra, depois que entendi de que se tratava, tive a escuta modificada para sempre e ganhei mais um grauzinho de complexidade em meu modo de pensar. Faço os créditos aqui para o cara que me ensinou a mexer com o que hoje é o Afro Hooligans.

Arvo Part – O tio é um dos compositores mais sublimes da história da música em minha opinião, ele pensa em termos de encontro de estruturas sonoras e faz/fez os sons mais densos que tenho ouvido nos últimos tempos. Interessante disso é que como muitos inquietos ele teve que passar por uma espécie de esgotamento de si mesmo para se renovar, disso saiu FRATES e a técnica que ele chama de “tintinnabuli”, não consigo dizer sobre isso, mas me traz a impressão de que os sons caem e sobem ao mesmo tempo, outros aparecem para evaporar…é quase que a clássica cena final do AKIRA.
Um dia vi em um documentário no qual ele dizia algo que era o que eu sempre pensei e que nnca consegui verbalizar: “quando vc estiver apaixonado por todas as notas de sua música ela estará pronta”. Isso fala da preguiça que eu particularmente sinto quando estou compondo algo e no encadeamento de notas, a nota certa que tornará tudo sublime, mágico, malvado ou pronto não aparece, então para resolver pego a nota mais fácil dentro da escala e ponho no lugar da nota que traria o sublime.

Thom Yorke – aqui inicio uma triade que dá continuidade ao que iniciei na Lisa Gerard. Thom York me mostrou o kaospad, e foi meu caminho em direção ao abandono do fruit loops para a composição com aparelhos eletrônicos físicos. Kid A talvez tenha sido um bom divisor de águas na cena indie, ali tinha a inauguração de algo que está rolando até hoje tanto na música eletrônica quanto no rock. O mal que canto aprendi ouvindo o bem que canta York, tentar copiar suas linhas sempre foram os melhores exercícios que pude fazer.

Jon Hopkins – me ensinou a organizar os kaospads que York me mostrou, fora isso, seus composição é cósmica demais, como disse um dia o finado Smile, “ali o ar fica tão denso que dá até para conta-lo com uma faca”, disse isso se referindo ao som da Noala, acho que isso se aplica tão bem quanto ao Hopkins.

David Bowie – Foi o cara que me ensinou que eu não preciso me prender em um único timbre de voz e que eu posso ir para tantos quanto eu quiser… Me identifico com o lance camaleônico dele, claro, no nível 1. Mais por falta de grana do que de idéias.

James Blake – Um rei dos loopings e do vocoder, sempre cria, vai na perspectiva de que menos é mais e no excesso de vazios que cria é que estão os grooves mais sofisticados dele. Além de ser um pianista fudidaço (tão moleque quanto Jaar). Toda vez que escuto sua voz ou seus beats penso como uma pessoa pode ser tão, mas tão errada e chegar em lugares tão improvavelmente bons. Em algumas músicas, ele leva a voz dele do grave para o agudo como se fosse um swip picking aveludado. O cara canta para fazer chorar, daí deriva o poder de encantar.

Kexo (Infamous Glory, Death By Starvation, Abske FIdes) – Falei tudo isso para estragar aqui, ele me ensinou o contrário de tudo o que falei anteriormente, me mostrou que sou um músico mediano e que sempre posso melhorar …caso eu não consiga melhorar que me acomode aonde chega meu repertório. Kexo me ensina como fazer uma música na qual 2+2 só poderia dar 4, como fazer coisa simples, despretensiosa, mas boa, ele me ensinou a adorar formulas consagradas e me livrou do peso de querer ser genial, uma copia original vale mais do que mil novidades tendenciosas e sem sabor. Um dia no carro ele, num surto de sabedoria filosofal, disse enquanto dirigia: “o melhor caminho é o que você sabe fazer”, balde de água fria que me ensinou a lidar melhor com minhas limitações… um mestre.