Mini Entrevista: Marcelo Fonseca (Black Embers Records)

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Mini Entrevista: Marcelo Fonseca (Black Embers Records)

” Eu não me importo mais com essa noção de “cena”. Vão existir pessoas. Elas vão tocar. Vão existir as pessoas que curtem isso e vão assistir.”

Conversamos com o Marcelo Fonseca, habitué do rolê independente, mente por trás da Black Embers Records e vocalista do O Cúmplice, sobre o festival Black Embers Fest III e a vivência de organização de rolês independentes. Se você toca, produz ou cola em shows independentes, essa mini-entrevista vai trazer bons ventos pro seu dia.

Howlin’:Black Embers Fest chegou à sua terceira edição nesse ano e já soa como um festival consolidado para quem acompanha gigs (alternativas) nessa cidade. Dois dias, dois lugares e 15 bandas. O que vocês destacam nessa edição e já podemos esperar algo da próxima?

Marcelo: Foi uma edição conturbada de se fechar, mas chegando nos dias de evento, rolou tudo bem. A parte conturbada, começou quando vimos que marcamos o fest, originalmente para o mesmo dia da Virada Cultural. Entrei em contato com o João do Test, para saber se teria Palco Test, e na ocasião ele ainda estava em dúvidas. Como o centrão enche de atrações gratuitas, achei que a concorrência ia ser pesada e conversando, decidimos, mudar de dia. Na ocasião já tínhamos algumas bandas confirmadas. Algumas caíram, pois na data nova que arrumamos (22 e 23 de abril), elas já tinham compromisso. Começou uma correria maluca, para fazer o corre do fest propriamente dito, com menos tempo de divulgação, ainda sem fechar completamente o line-up.

Felizmente deu tudo certo, mas foi bem stressante. Rolaram coisas legais, nessa edição. A principal delas na minha opinião, foi a estreia do Espaço Ugra, com curadoria deles na organização da mini feira de publicações independentes.

Além disso, rolou uma sessão de autógrafos com Marcatti, que na minha humilde opinião representa bem o “artista marginal” daqui de SP. Sobre as bandas, destaco o espírito faça você mesmo, o comprometimento e vontade de fazer e estar no fest. Cada uma tinha uma sonoridade muito própria, mas valeu muito ver que linhagens diferentes podem se conversar e construir junto. Como o festival rola uma vez ao ano, nos permitimos pensar durante uns meses antes de tomar qualquer passo. Desde a primeira edição foi assim. Ficamos um tempo parados, depois quando definimos a data e lugar, corremos para fechar o line-up. Portanto, agora tiraremos um tempo para descansar e pensar os passos seguintes.

Howlin’: Qual a maior dificuldade em organizar um festival de música independente e, em contrapartida, o que os motiva?

Marcelo: A maior dificuldade é tentar atrair o maior número possível de pessoas, tendo um trabalho normal das 8 às 18hrs na semana. É fazer com que a proposta que está na minha cabeça, soe interessante para outras pessoas além de mim mesmo. Por mais que nos esforcemos, usemos redes sociais, que façamos cartazes e flyers impressos, o grande problema é o público. É uma incógnita muito grande, pois não sabemos se vai rolar um megaevento no dia e zoar tudo. O Black Embers Fest, já esbarrou com eventos de diferentes portes, que não necessariamente afetaram o seu público, mas que tira uma fatia.

Teve o Lolapalloza, um show do Asphix, e agora um do Candlemass. Nessas três ocasiões, fica um frio na barriga, mas depois penso que o fest é variado em termos de opção e que nosso “público” é meio diferente. Não é só punk, não é só o cara do grindcore, nem o deathbanger. Vai ter aquele que gosta de post-hardcore, outro que gosta de artes, zines, publicações independentes… Mas no geral esse é meu maior medo. Eu gostaria que o fest não dependesse de bandas “grandes” para fechar as contas, mas é uma possibilidade que não descarto no futuro, conforme o andar da carruagem.

Até hoje não usamos desse artifício (e espero não ter que usar), pois quero que diferentes bandas tenham espaço para fazer seu som. O restante, local, equipamento, a gestão da coisa na hora, tudo isso se consegue. Mas o público, é essa coisa indomável, incontrolável que ao mesmo tempo nos fascina e assusta.

O que me motiva é ver bandas velhas em atividade de forma autêntica, e ver bandas novas surgindo com aquela “fome” de tocar e fazer acontecer. Eu ainda me empolgo com gente tirando diferentes tipos de som, sem se preocupar com as engrenagens da “indústria” da música.

Gente que você percebe que tira do próprio pagamento, a grana para alugar um estúdio semanalmente e ensaiar. Que escreve, compõe com os amigos algo que saiu do âmago. Autoral, verdadeiro, sincero. Eu acredito no underground, na música alternativa, como uma tremenda plataforma criativa. Seja lá o nome que dêem a isso. Ou underground, ou subterrâneo, ou hardcore, ou metal…

Eu não me importo mais com essa noção de “cena”. Vão existir pessoas. Elas vão tocar. Vão existir as pessoas que curtem isso e vão assistir. Como vai ter também o cara que gosta de organizar, fazer discos, e assim por diante. Esse “universo” é um espaço para diferentes artes, visões e ideias. No meu modo de ver não é um trampolim, para o mainstream, é uma base de operações permanente pronta para dar um grande “fuck-off”, para a “indústria”.

Howlin’: O line-up desse ano contou com bandas como Chalk Outlines e Plague Rages. Ou seja, foi do rock alternativo 90’s ao grindcore com parada para o metal e post-rock. Posso estar errado, mas acredito que isso é reflexo da receptividade do público de música extrema no cenário independente, ou seja, as pessoas estão mais receptivas com outras sonoridades. É isso o que você pensa quando define as bandas?

Marcelo: Eu e Bianca, minha esposa, sócia, companheira (e terapeuta), ouvimos muitos tipos de som. É mais notável que eu ouça as coisas mais extremas, death metal, grindcore, black metal, hardcore, sludge, doom e crustcore. Enquanto isso, ela gosta mais de indie, folk, emo 90, coisas experimentais, instrumentais e eletrônicas.

Nós tentamos contemplar tudo isso e acrescentar uma ou outra coisa fora de esquema. Eu não sei bem dizer se o público está tão aberto. Vejo muito show de bandas parecidas entre si, tocando junto, e a galera comparece. Nós começamos a fazer assim, pois gostamos disso, do som, e da ideia e também, porque isso acontecia meio que “normalmente” nos eventos que comparecíamos.

Basta lembrar da própria Verdurada. Para dar um exemplo: o Infamous Glory (death metal), O Cúmplice (hardcore), Noala (doom) e Meant to Suffer (grindcore) já tocaram juntos em diferentes ocasiões. Talvez isso já acontecesse e o público meio que esperasse por mais disso. Mas não posso afirmar com veemência. Acho que no futuro, o que iremos fazer é misturar um pouco mais, tentar conhecer mais bandas interessantes, com propostas diferentes e seguir fazendo e aprimorando.

Howlin’: Quais são os próximos passos da Black Embers Records nesse ano?

Marcelo: Descansar um pouco. Estamos vindo de uma toada muito puxada. Foi a tour d’O Cúmplice & Besta no final do ano passado. O lançamento da versão do Split vinil dessas duas bandas, a organização e realização do Black Embers Fest III. Como falei acima, temos trabalhos “normais”, o selo é uma ocupação paralela que não traz grana, muito pelo contrário.

O Basalt está gravando nesse momento seu primeiro álbum, e estamos desenhando com a banda como vai ser o formato e passos posteriores de lançamento. Além deles, O Cúmplice está compondo para lançar um disco full ano que vem. Recebemos algumas propostas para participar em lançamentos, que não tivemos tempo de estudar.
O selo é pequeno, cada passo tem que ser dado com muito cuidado e consciência para que nada fique comprometido negativamente. Vamos caminhando. De qualquer forma fico contente pelo interesse das pessoas, das bandas. E na medida do que for possível vamos fazendo.

Ouça o som d’O Cúmplice: https://ocumplice.bandcamp.com/
Acompanhe a Black Embers: https://www.facebook.com/BlackEmbersRecords/?fref=ts